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Nas redes, o ódio tende a vencer

Seja uma polarização política, eleições ou guerras no Oriente Médio - se você tem um perfil nas redes sociais, também tem um palanque, um megafone e seguidores prontos para te escutar. Alguns de nós sentimos o dever moral de nos posicionar e de expressar o que sentimos ou pensamos, impactando o mundo com nossas opiniões. 


Será que é assim mesmo que funciona?


Toda essa realidade interativa é intermediada pelas plataformas sociais - absolutamente tudo o que nós usuários vemos, o que deixamos de ver e o que nossos seguidores veem nos seus respectivos feeds passa por um filtro. Nesse mundo virtual, é um algoritmo que cria e controla as regras da óptica como quiser. Estamos todos enxergando o mundo através dos “binóculos” das redes. 


E se, por um momento só, abaixarmos os binóculos e analisarmos as suas lentes?




As redes sociais hoje são tidas como uma forma válida de se informar sobre o mundo, mas essas mesmas plataformas foram arquitetadas e otimizadas com um outro propósito supremo - antes mesmo de "informar" ou "democratizar a influência" - sua meta é a maximização da visualização de anúncios por seus usuários. 

É muito frustrante observarmos posts péssimos cheios de curtidas e visualizações, enquanto outros super ponderados e informativos sem qualquer visibilidade ou retorno positivo - especialmente quando somos nós que postamos algo que sentimos ser tão bem pensado, tão forte. Cada conteúdo, cada notícia, desde as mais chocantes, as mais trágicas, as análises mais aparentemente ponderadas e até os posts mais fúteis, são apresentados a nós não por acaso -  esta é uma curadoria selecionada por um algoritmo poderoso que quer, acima de tudo, nos manter scrollando continuamente. O algoritmo sabe exatamente qual post vai te fisgar, qual tipo de vídeo vai te chocar.

Dois  efeitos desse ecossistema digital que compõem o rebaixamento humano são: Radicalização e Polarização.


Radicalização:

O choque, o exagero ou a mentira incitam muito mais que a verdade. Isso é o que acontece na prática quando as redes usam um algoritmo preocupado com maximização de tempo de tela para impulsionar conteúdos:

Em outras palavras, nós alimentamos o algoritmo com o que queremos ver, e ele nos alimenta com conteúdo cada vez mais raivoso e visceral disso. O resultado são clusters com realidades paralelas. Não só isso: quando postamos algo que é moderado ou causa desconforto para o nosso cluster, recebemos menos curtidas - menos reforço social. Sentimos na pele o sentimento de desamparo e exclusão, como um ser sendo expulso da tribo para sobreviver na selva sozinho. É o desestimulo a questionar o próprio status quo. E então a tendência de visões paralelas se amplifica, acarretando na…


Polarização:

Questões complexas e multifacetadas tomam uma forma rasa e viram um mero Fla-Flu. A polarização segmenta a discussão entre dois polos distantes, ambos vivem em um ciclo de deslegitimação (e até desumanização) mútua de quem discorda, acabando com o debate cívico e construtivo.

Este é o gráfico do debate político brasileiro no Facebook em 2016. Cada bola representa uma página, seu tamanho é a quantidade de seguidores; quando uma pessoa curte um post de uma página e também curte um post de outra página, as duas páginas são conectadas por uma linha e suas representações ficam mais próximas uma da outra. Esta é a esquerda e direita em 2016:


Fonte: Fundação FHC
Este é o mesmo gráfico apenas 3 anos antes:

Fonte: Fundação FHC

Observe como não havia dois polos distantes, como as opiniões se misturavam dependendo da temática - quem era a favor das ciclo faixas não era obrigatoriamente contra o aborto, mas praticamente não vemos mais o mundo dessa forma. Passados anos desde 2016, esse cenário apenas piorou e segue neste mesmo rumo.

No mundo físico, nos adaptamos de forma diferentes aos diversos contextos nos quais nos inserimos, temos personalidades multifacetadas, tomamos como sinais as expressões faciais e linguagem não-verbal de nossos interlocutores e moldamos a forma de comunicar nossas ideias por uma questão de empatia. Nas redes sociais, nos reduzimos a uma única persona pública, sem balizadores das reações humanas, sem a possibilidade de adaptar o tom da comunicação de acordo com o contexto. Tudo isso faz com que nossas relações simplesmente nos aproxime daqueles com quem concordamos e nos afaste daqueles com os quais discordamos.


O donos das empresas fazem de propósito porque são malvados?

Não. O algoritmo é impessoal, ele somente entrega o que vai gerar mais engajamento. Se é raiva que está sendo eficiente, isso diz muito sobre a humanidade. Na verdade, isso é explicado pela evolução - é o mesmo motivo pelo qual não conseguimos evitar não olhar para um acidente de carro ao passar na estrada. 

Tomamos consciência de um desastre - seja um acidente de trânsito, ou assistir Datena, Cidade Alerta, ou um post inflamatório - e esses dados do nosso sistema perceptual estimulam então a amígdala (a parte do cérebro responsável por emoções, táticas de sobrevivência e memória). Em seguida, o cérebro avalia se esses dados (consciência do desastre) representam uma ameaça para nós, e, assim, o julgamento entra em cena. Como resultado, a resposta de 'lutar ou fugir' é evocada. É como se nosso cérebro voltasse para a época das cavernas e precisasse olhar para o arbusto para ter certeza que atrás dele não há alguma onça.

Justamente em posts deste tipo, nossa mente está sob estado de perigo e nossa resposta tende a ser agressiva, nosso impulso é de compartilhar sem devida análise ou comentar de forma possessa. É uma espiral negativa.  Estamos sofrendo com a raiva e ódio mas, para as redes sociais, o nome disso é engajamento.


Destruir a verdade é mais fácil que reconstruí-la

Observe essa ilusão de ótica - todas as linhas horizontais são paralelas. Mesmo ter o conhecimento de que se trata de uma ilusão de ótica não é o suficiente para impedir que sejamos influenciados por ela - o mesmo ocorre com TODOS NÓS quanto à mentiras nas redes sociais.





E lógico, existem interesses geopolíticos envolvidos nas guerras de narrativas:

Dinheiro fala mais alto

As empresas responsáveis por plataformas sociais dizem estar fazendo o possível para combater discursos de ódio e desinformação, mas o que se vê na prática é que quando o bem maior está na frente do lucro, o dinheiro fala mais alto:


Temos rotinas extremamente aceleradas, muita informação sendo ofertada e consumida, com escassez de atenção para conseguir dar conta das diversas demandas. Nesse ritmo, muitos de nós não temos capacidade de verificar fontes, nos aprofundar em temas complexos - ficamos à mercê de informação pré-digerida, de pílulas de conteúdo ou de sínteses.

Nossas redes sociais atendem a essa demanda, mas estão cheias de teorias de conspiração, desinformação, informação descontextualizada, simplificações de temas complexos através de memes, lives e infográficos, pessoas sem preparo dando opiniões, tentativas de lacrações um em cima do outro, comentários odiosos, superexposição da violência. 

É importante frisar que esse texto não está normalizando o autoritarismo ou negando o terror, a barbárie e a injustiça de morte de inocentes que ocorre nas guerras. Nenhuma morte é justificável. Uma única morte é um ultrapasse e a perda imensurável. Há sim, motivos para choque, raiva, indignação e ultraje. Enquanto isso é verdade - sem utilizar termos como “porém”, “mas” ou “apesar disso”- as redes sociais, que são nossos binóculos para a situação, não estão promovendo um entendimento compartilhado

Enquanto uma ideia precisa ser simples para ser acessível e compartilhável numa rede social, paradoxalmente, ela precisa ser complexa para atender à complexidade da vida real - há uma dicotomia dificilmente conciliável entre as ideias promovidas nas redes e o que se pode implementar na vida.

Além do mais, para resolver qualquer conflito, sempre precisamos nos colocar nos sapatos de quem está do outro lado. As redes sociais tem a capacidade de fazer isso, mas é o oposto do que estão fazendo. Elas estão ressaltando e incentivando o ódio, nos mostrando versões paralelas - ou até falsas em certos casos - nos afastando da resolução das crises, nos aproximando da destruição mútua.


"Nós criamos ferramentas que estão rompendo o tecido social de como a sociedade funciona... Está corroendo as bases fundamentais de como as pessoas se comportam consigo e entre si.”
Chamath Palihapitiya, ex-VP de user growth do Facebook

Estas lentes estão distorcidas, quebradas! Estes “binóculos”:

  • mostram uma situação diferente para cada um que observa através deles

  • mostram só partes selecionadas de um todo

  • simplificam uma situação complexa

  • exaltam aquilo que gera raiva

  • mostram inclusive mentiras


Conteúdos anti-semitas aumentaram em mais de 919% no X em um mês desde 7 de Outubro e conteúdos Islamofóbicos aumentaram 422% só nos dias 7 e 8 de Outubro. O problema maior é que esses atos de ódio nas redes estão vazando para o mundo físico.




A verdade é que não somos assim - as pessoas têm muito mais em comum do que de diferente, a grande maioria é moderada (apesar de não parecer). As redes sociais, que tem as ferramentas, capacidade e potencial para criar uma teia de cooperação e diversidade, tem nos tornado antissociais.

Há grupos que se organizam como brigadas para lotar comentários em notícias que veem como odiosas, acreditando que isso pode reverter o esquema. Eles estão apenas gerando mais engajamento e portanto visibilidade para este conteúdo. A realidade é que não há quantidade de posicionamentos, posts, conteúdos, textos, que você possa criar, curtir ou compartilhar - enquanto não mudarmos a estrutura das redes, enquanto não responsabilizarmos as plataformas sociais pelo ódio que estão propagando, somente o ódio vencerá. Precisamos consertar as lentes destes “binóculos” para começarmos a entender e resolver as questões de fato..


O que nós podemos fazer?

  • Entender que radicalização e polarização são dois exemplos de rebaixamento humano.

  • Saber que redes sociais, da forma que estão, são estruturalmente falhas como fontes de informação.

  • Priorize fontes com histórico e credibilidade, que utilizem uma linguagem mais ponderada e que tragam contexto para cada afirmação, fontes para cada dado e explicações de motivações não diabólicas para cada agente.

  • Se possível, vale a pena pagar por informação de qualidade. Informação é poder.

  • Dê like, share, follow e post com responsabilidade.

  • Lembre-se que há um mercado publicitário que sustenta esta roda - campanhas como Sleeping Giants ou Stop Hate for Profit fazem pressões no bolso das plataformas que podem ser bem eficazes em escala pontual.

  • Impulsione demandas por responsabilização e regulamentação das redes sociais para soluções mais estruturais. “Freedom of reach isn’t freedom of speach” - o alvo não é a livre expressão, mas sim o impulsionamento inconsequente pelos algoritmos.

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