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Não, seu celular não está te viciando

Muita gente se preocupa com o vício em celular e os “perigos das telas”, porém os artifícios que nos mantém vidrados não são inerentes ao dispositivo celular nem às telas. Nosso vício não está no aparelho necessariamente. O problema está em outro lugar.
Nomear uma questão corretamente é o primeiro passo para resolvê-la. Você conhece o termo “Extrativismo de Atenção”? 

A Economia Extrativista de Atenção utiliza tecnologias avançadas e conhecimentos neurocientíficos para capturar e reter a atenção dos usuários de forma intensiva, visando extrair o máximo deste recurso. Ao contrário de formas tradicionais de monetização que sempre existiram na Economia da Atenção, como anúncios em jornais e programas de TV, a Economia Extrativista de Atenção utiliza tecnologia interativa e personalizada e técnicas avançadas para interromper, fisgar e reter a atenção dos usuários em plataformas digitais.

Essa abordagem vai além do simples monetizar da atenção; ela busca criar uma dependência, muitas vezes explorando vulnerabilidades psicológicas e neurobiológicas para nos manter engajados de maneira contínua.


Sabemos de fato o que é “atenção”?

Imagine que você esteja numa praia paradisíaca curtindo seu dia da melhor forma, eis que você se lembra que deixou o fogão aceso em casa e que sua casa neste momento possivelmente esteja pegando fogo. Apesar de seu corpo estar no paraíso, sua atenção está num lugar péssimo - dificilmente você vai conseguir aproveitar seu dia a não ser que você volte sua atenção para a praia e esqueça da sua casa. Por isso dizemos, a qualidade de nossas vidas está na qualidade de nossa atenção.



Nossa atenção talvez seja uma das coisas mais importantes que temos, é o que determina o uso de nosso tempo e molda nossa realidade. Para aprender, precisamos prestar atenção; para amar, precisamos ser atenciosos; para nos cuidarmos e sermos saudáveis, precisamos estar atentos.

O ex-estrategista de anúncios da Google e hoje filósofo de Oxford, James Williams define 3 tipos de atenção:

  • 🔦 Foco de luz (Spotlight): é nosso foco e concentração, permite que façamos o que queremos;


  • 🌟 Luz das estrelas (Starlight): está relacionada a vivermos alinhados com nossas metas e valores, permite que sejamos quem gostaríamos de ser;


  • ☀️ Luz do dia (Daylight): é nossa contemplação, meta análise e aprofundamento em autoconhecimento. Permite que possamos querer o que nós mesmos “queremos querer”.


Ou seja, a atenção afeta toda a experiência de vida, nossa percepção, memória, consciência e identidade. Sem uma atenção consistente, a atividade psíquica se processaria como um sonho vago, difuso e contínuo - nós seríamos incapazes de elaboração ou desenvolvimento de qualquer tipo.

E o que torna esse recurso vital ainda mais valioso é que ele é um recurso limitado - nós somente temos 24 horas no nosso dia, a possibilidade física de só estar em um lugar e a capacidade mental de fazer uma coisa de cada vez.


Economia da Atenção - recurso vital vira commodity valiosa

Empresas competem por nossa atenção: atenção é primordial para converter pessoas em consumidores. "Mercadores de atenção"estão trabalhando em departamentos de marketing de empresas de todas as naturezas, além de agências de publicidade, canais televisão, rádio, produtoras audiovisuais, livros e livrarias, outdoors, jornais, revistas, cinema, cursos, entre outros. Assim, a atenção, além de recurso vital para nós, é uma commodity valiosa no mercado da atenção. Nada muito diferente de petróleo, madeira, minérios…


Hora de história:

Até o início dos anos 1800s, jornais eram calhamaços caros que continham praticamente apenas informação técnica que interessava mais a contadores e advogados. Benjamin Day, dono do jornal The Sun, teve uma ideia: ao invés de ganhar dinheiro com a venda do jornal, ele poderia ganhar dinheiro vendendo publicidade no jornal - ou seja, o lucro não viria mais do papel, viria da atenção. 

Para essa estratégia ser lucrativa, ele precisaria vender muito mais jornais e teria que fazer uma aposta: vender abaixo do preço de custo de impressão para ter certeza que teria um grande público. A forma que ele garantiu isso foi escrever notícias mais suculentas do que as informações técnicas, foi a partir daí que ele apelou para os maiores exageros e mentiras, chegando até a publicar notícias de que haveria seres-morcego vivendo na lua. Isso muito antes dos termos clickbait e fakenews existirem. O modelo deu super certo, Day lucrou bastante e chamou atenção da concorrência. O modelo de negócios dos jornais teria mudado a partir de então.


imagem em preto e branco de homens-morcego em volta de um vale
ilustração publicada pelo The Sun em 1835 sobre a lua

Na busca pelo maior lucro, Day propagou sensacionalismo e desinformação - naquele momento, ele via o jornalismo íntegro como um empecilho para a maximização de vendas. Há momentos em que esse mesmo conflito de interesses ainda ocorre hoje na mídia. Em alguns casos, o lucro não está alinhado ao bem-estar social e consequências podem ser geradas para a sociedade.

Além do sensacionalismo ou desinformação — antes mesmo das redes sociais e smartphones — a economia da atenção já trazia consigo muitas outras consequências negativas, como má alimentação e sedentarismo, além de exaltação do consumismo e sexualização precoce em crianças.

No entanto, esse mercado se desenvolveu, e com uma virada na tecnologia, algo novo surgiu. Um novo patamar foi atingido, merecendo um conceito próprio.


Economia Extrativista da Atenção - ponto de virada

Em 16 de Julho de 1945, no deserto de Nevada, EUA. Um grupo de cientistas presenciaram o primeiro teste da bomba atômica, eles sabiam que o mundo havia mudado para sempre de forma irreversível. Chegamos à primeira vez na história onde a humanidade seria capaz de acabar com toda a vida terrestre com o toque de um botão. É um ponto de virada.



Talvez estejamos presenciando um ponto de virada tão significante quanto em relação à informação, comunicação e compreensão humana. A partir do momento que há automatização de incontáveis testes A/B, personalização de experiência, anúncios de micro segmentação, machine learning, IA generativa e poderosos algoritmos tunados para engajamento - chegamos a um ponto no qual as máquinas operam e trazem “soluções” que nem mesmo os cientistas  que as criaram conseguem entender. Neste contexto, estas “soluções” seriam referentes a manter pessoas imersas nas telas pelo máximo de tempo possível ou induzi-las ao consumo.

Toda economia na nossa estrutura tem o interesse em maximizar lucro. Sendo atenção a commodity a ser revendida, o esforço para maximizar a atenção captada não é novidade - mas com tecnologias modernas  que são interativas, portáteis, personalizáveis, otimizadas em ritmo além da compreensão humana, o jogo muda. Nós não estamos competindo pela nossa atenção contra somente um time de engenheiros, programadores, neurocientistas, designers, doutores, MBAs, PHDs... Estamos competindo sozinhos contra todos estes e mais ainda bilhões de dólares investidos em tecnologia avançada e algoritmos poderosos que se otimizam autonomamente.

É neste contexto que vivemos hoje com a Economia Extrativista da Atenção. Uma extração tão desenvolvida que vai além de monetizar a atenção, ela cria dependência, manipula hábitos e até altera a química do cérebro


Como identificar técnicas do Extrativismo de Atenção:

  • Para começar, geralmente o serviço é “de graça”. Ou seja, você está pagando com seus dados e sua atenção - mas nem sempre é o caso.

  • Recomendações de Conteúdo Personalizadas: plataformas analisam seu comportamento, suas preferências e interações para fornecer recomendações de conteúdo personalizadas. Algoritmos utilizam esses dados para mostrar conteúdo mais propenso a chamar sua atenção e mantê-lo rolando a tela continuamente.

  • Notificações e e-mails para fisgar: plataformas enviam mensagens para o seu dispositivo para alertá-lo sobre novos conteúdos, atualizações ou interações. Essa forma imediata e direta de comunicação te incentiva a retornar à plataforma. Muitas vezes, você recebe o alerta de que houve uma interação -  “fulano te enviou uma mensagem”-, mas não exibe a mensagem em si ou não te deixa responder na própria notificação - ou seja, é uma isca para te puxar de volta para a imersão.

  • Scroll infinito e Reprodução Automática: recursos que eliminam a necessidade de clicarmos ativamente para mais conteúdo. O próprio criador do scroll infinito já alegou: “Percebemos que se não oferecermos tempo para que a sua mente e cérebro alcancem seus impulsos, não haverá estímulo de pausa, então elas continuam lá scrollando."

  • Cores, Luzes e Sons: são estrategicamente utilizados para aumentar a sua impulsividade. Aquele sentimento de “Preciso clicar nessa notificação vermelhinha pulsante no canto superior da tela”.

  • Recompensas Variáveis: a aleatoriedade de recompensa eleva o comportamento compulsivo, como constatou o psicólogo B.F. Skinner. Da mesma forma, entramos em redes sociais, games e plataformas sem saber o que vamos encontrar: mensagens com oportunidades imperdíveis? Dezenas de likes? Comentários? Ou simplesmente nenhum dos anteriores…

  • Manipulação de dopamina: o neurotransmissor responsável pelo nosso sentimento de recompensa e comportamento é um artifício manipulado para te manter nas telas por meio de curtidas, reações, sorrisos e sentimentos de validação social.

  • Validação Social: Notificações sobre interações de outras pessoas, como curtidas ou comentários, viram moedas de validação social, moedas de amor, carinho e afeto. Isso nos incentiva a permanecermos envolvidos e continuarmos postando conteúdo para receber feedback positivo.

  • Comparação social: assim como interações (número de seguidores, likes, comentários) são vistos como moedas de validação social e são quantificados - há a facilitação de comparação e competição entre nós o que impulsiona engajamento. Quantos stories de “feliz aniversário” você recebeu este ano?

  • Elementos de Gamificação: Incorporar elementos de gamificação, como curtidas, comentários, compartilhamentos e distintivos, explora as motivações psicológicas dos usuários. Esses elementos desencadeiam químicamente um senso de realização e incentivam os usuários a interagirem mais com a plataforma.

  • Conteúdo com Tempo Limitado: conteúdo com prazo de validade ou "stories" que criam o receio de estar perdendo algo (FOMO - Fear of Missing Out/Medo de estar por fora) e te incentivam a verificar a plataforma regularmente.

  • Testes A/B: Empresas realizam incontáveis testes A/B para experimentar com diferentes recursos, layouts e algoritmos para ver o que captura a sua atenção de maneira mais eficaz. A cor de cada botão, o barulhinho que faz - qual é o design perfeito para te segurar mais tempo na tela?

  • Ações do Usuário Incentivadas: Oferecer recompensas, descontos ou conteúdo exclusivo em troca de ações específicas do usuário (como compartilhar, convidar amigos ou completar um perfil) pode te incentivar a permanecer ativo na plataforma ou no game.

  • Publicidade Micro Segmentada: Plataformas de mídia social aproveitam os dados do usuário para fornecer anúncios altamente segmentados. Anunciantes podem especificar seu público com base em dados demográficos, interesses e comportamentos, tornando os anúncios mais relevantes e envolventes para nós usuários.


As empresas que podem vir à mente que mais aplicam essas técnicas são as redes sociais, aplicativos de encontro, canais digitais de conteúdo, games, plataformas de streaming.


Nossos celulares e redes sociais poderiam ter outros designs: ao invés de scroll infinito, poderíamos voltar a ter limite de conteúdo por página; ao invés de alertas de notificações com a cor vermelha que disparam gatilhos em nossas mentes, teríamos uma experiência muito menos ansiosa com notificações azuis, por exemplo (simples, não?). A dependência de telas não está no celular, está no extrativismo.


Da mesma forma que recursos naturais vêm sendo extraídos em ritmo insustentável, levando a catástrofes globais chamadas de mudança climática, na economia extrativista da atenção, nossa atenção vem sendo extraída em ritmo insustentável causando o que chamamos de rebaixamento humano. 

O rebaixamento humano contempla uma série de consequências que sofremos em escala individual e global relacionadas à Economia Extrativista da Atenção - questões ligadas a desenvolvimento infantil, saúde mental e física, relacionamentos, desinformação, discurso de ódio e ameaças à democracia. Você pode encontrar uma série de evidências AQUI (ou para uma lista mais completa em inglês, recomendamos AQUI).



Conclusões

A métrica de sucesso de “maximizar tempo de tela” não está alinhada a uma vida plena dos usuários - nessa estrutura, quanto mais poderosa e desenvolvida ficar a tecnologia e os algoritmos direcionados para o extrativismo de atenção, maiores serão os prejuízos à humanidade.

Nomear bem o problema é essencial para resolvê-lo. Ao entendermos e identificarmos “Extrativismo de Atenção” podemos entender as raízes de nosso apego e imersão no celular, podemos agir para assumir mais controle e exercer mais pressão sobre os agentes que estão nos causando a perder controle sobre nosso tempo. Podemos frear o rebaixamento humano que vem nos assolando.


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